segunda-feira, 4 de junho de 2012

Voar



Estava farto de viver. Estava farto daquela enclausura física com que sadicamente o criador o havia presenteado à nascença. Olhando para o passado percebeu que tivera uma verdadeira vida de merda. Uma vida de escravidão andando de mão em mão, servindo de burro de carga de toda a porcaria que alguém se lembrasse de comprar sem que algum dia tivesse tido uma opção de escolha. Não nascera do amor ou de uma relação sequer. Não sabia o que era um lar, uma família ou amigo. Nascera numa fábrica grande e cinzenta sem janelas ou uma nesga de luz solar. Nasceu com um destino traçado e como ele tantos outros entre aquelas quatro paredes partilhando a mesma sorte e dos quais nunca chegou a ter notícias.

Hoje que está velho e sem serventia jaz numa valeta rasgado, sujo e vazio olhando quem passa esperançoso que alguém se enterneça e lhe estenda uma mão.
Recorda e lamenta nunca ter realizado o seu sonho. O seu único sonho. Voar.
Nunca sonhou com dinheiro, poder ou criados, não! Sonhava única e simplesmente poder voar. Sonhava cruzar os céus, cortar as nuvens, tocar o sol. Ver o mundo lá de cima. As casas, os carros e as pessoas do tamanho de insignificantes formigas. Ser livre!
Bem, a verdade é que tinha "voado" umas duas ou três vezes em toda a sua vida, mas haviam sido uns miseráveis voos de merda. Deu-lhe o vento e lá voou uns metros. Nem sabia se lhes havia de chamar "vôo". Talvez fosse mais honesto chamar-lhes saltos de tão curta que fora a duração e distância.

Sabia que ninguém o iria tirar dali, não naquele estado. Sabia que tudo estava prestes a acabar e que mais hora menos hora a sua infelicidade ia ter um fim. Era apenas uma questão de tempo até aparecer o homem das "limpezas" que faria cair o pano dando por terminada a peça a que sarcasticamente alguém poderia chamar de "vida". Mas não estava triste, sentia-se preparado. Não levasse consigo para a eternidade a pergunta que o perseguira toda a vida e aparentemente morreria consigo, e talvez até se sentisse aliviado.

- "Carregar compras não pode ser o único propósito na vida de um saco plástico. Por que raio havia nascido com asas se nunca conseguira voar???"

4 comentários:

Ana Duarte disse...

Porque voar prejudica o ambiente, Sr. Saco.

Rafeiro Jay disse...

Ha,ha! Aí é que estás enganada Ana, imagina que ele voava para sempre? Só prejudica o ambiente quando cai ao chão... Dá que pensar. :)

Ana Duarte disse...

Voar para sempree... como é que eu não me lembrei disso. :) Tens razão. Mas só podia ser um ou dois está bem?

Rafeiro Jay disse...

Ok, só um ou dois! :)