Não sei se foi por ter tido uma infância "fraquinha", se por fazer anos a dois dias do Natal, o que também fez com que saísse prejudicado no que toca a prendas, se pura e simplesmente por ser um calhau frio com um bocadinho de coração. O que eu sei, é que gramo "bué" o Natal! Lógicamente de uma forma diferente de quando era criança, pois a magia do Natal, aquela que mexia com a força das pernas e as fazia tremelicar quando nos dava aquele misto de medo e ansiedade por o Pai Natal andar pela casa enquanto todos dormiamos (ainda que na chaminé lá de casa não passasse nem a Kate Moss), essa magia desaparece no dia em que alguém, normalmente um irmão ou irmã, acorda mal-disposto e nos diz " Ó cromo, o Pai Natal não existe, pah..." e vira costas, deixando-nos ali parados em estado de choque, de olhos esbugalhados como os marretas, fitando inertes o infínito... Arriscaria até dizer que um gajo passa a homem não no dia que aparecem os primeiros pêlos púbicos mas no dia em que descobre que o Pai Natal não existe. A partir daqui tudo muda, o Natal não é mais mágico mas continua a ser giro. No entanto não tem que ser o fim. Não há renas nem trenós voadores, nem velhos de barbas, doendes e fábricas na Lapónia, mas há tudo o resto. Continua a ser agradável pela sensação de conforto familiar. É o dia de estarmos todos juntos. Todos de camisola de gola alta e pantufas de pé de urso a jogar lotto. É o dia de acordar e a família estar toda abancada pelos quartos e pela sala. É o dia de acordar e ver o Natal dos hospitais de 1988 na RTP memória.
"O dia de Natal é um dia igual aos outros!" - Claro que não é. E todos sabem disso. É um estado de negação de quem gostava que o Natal tivesse mais qualquer coisa que lhes está a faltar. Um marido falecido, um irmão desaparecido ou um filho tresmalhado. Não só o Natal não é um dia como os outros como é um dia pior que os outros. É um dia que inflaciona qualquer sentimento dentro de qualquer coração e o faz transbordar, quer seja bom ou mau. Até Hitler ia a casa no Natal, pelo amor da Santa...
Agora... Grave, grave é disfarçar o Natal... Por mais pobre que fosse a minha infância, os meus pais faziam questão de nos dar um Natal como manda a sapatilha! Tenho pena dos putos de hoje em dia. É cada vez mais comum ouvir comentários como " Vou comprar uma árvore pequenina, para não ocupar muito espaço (e quando digo pequenina é mesmo coisa para uns 30cm)... Oh, afinal o Natal é um dia como os outros..." Não façam isso. Se há coisa pior que não fazer algo é fazer mal feito. E "enganar" os putos com uma árvore pequenininhaaaaaaa... É foder as crianças. É a mesma coisa que conhecer uma catraia com um peito todo giro e bem formado e na hora H descobrir que ela tinha WonderBra. Aparentemente é igual, mas na realidade... Não é!
E convenhamos, o prazer de enfeitar um pinheiro de Natal de 2m de altura não tem preço.
Que as pessoas estejam tão absorvidas pelos problemas, pela crise, os aumentos da gasolina, e que andem desanimados, entende-se. Não se entende é que obriguem as crianças a senti-lo e passarem à frente um dos mais importantes momentos do ano para elas, o Natal.
Não façam isso ao Natal e não façam isso à canalha. O Natal é uma altura de festa. Uma festa da família e dos acima de tudo uma celebração da amizade. Tanta conversa ouço com a tradição isto, a tradição aquilo, eh pah... Então façam cumprir a tradição. Os doces, o bacalhau, os rituais, o Pai Natal (no caso de haver crianças), tudo.
Como já deve ter dado para perceber, estou-me nas tintas para o significado religioso. Para o nascimento de Cristo, para a virgindade de Maria e a passividade de José. Não me interessa quem é o pai da criança. Mas não podemos nunca em consciência, deixar de apreciar o calor do Natal, deixar de apreciar a companhia da família e dos amigos, até mesmo por respeito por quem não o pode fazer. Temos o resto do ano para pensar nos problemas...




